Relato Francisco Gaetani 24/07/2013

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Relato Francisco Gaetani 24/07/2013

Mensagem por Rubens Bias em Sex Ago 23, 2013 9:11 am

Relato feito por Nina Apparicio

No dia 24/07/2013, presenciei, por um acaso, parte de uma palestra ministrada pelo secretário-executivo do MMA, Francisco Gaetani, sobre a identidade da categoria dos Analistas de Infraestrutura na administração pública federal. No decorrer da fala do secretário, percebi que algumas coisas poderiam ser válidas para a nossa categoria e, por isso, comecei a gravar e agora transcrevo aqui o que acredito que pode ser útil às nossas discussões.
Gaetani é Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental e foi um dos idealizadores da carreira de Analista de Infraestrutura. Formado em Ciências Econômicas pela Universidade Federal de Minas Gerais, tem doutorado em Administração Pública e mestrado em Políticas Públicas pela London School of Economics.

* Vocês chegaram em um momento de grandes expectativas de respostas substantivas do governo em relação ao gasto público na área de atuação da carreira. E uma pequena parte das pessoas que tomam decisões na área de vocês tem competência técnica (muitos são políticos ou ocupam cargos de confiança).

* Contexto: gastos altíssimos do governo voltados para área de atuação; tolerância muito pequena ao risco de investimento e pressão externa gigantesca para respostas e melhorias para o setor.

* Os desafios dos ministérios e órgãos voltados a áreas específicas (Saúde, Educação, Dnit, etc) são muito maiores que vocês têm capacidade para enfrentar individual ou corporativamente.

* O que há em favor: 1. A pressão dos problemas, que obrigam que soluções sejam tomadas por quem tem capacidade e expertise para resolvê-los. 2. A reputação construída pela categoria é alta e vocês são disputados. 3. O salário de vocês pode ser comparado com o que tem sido aplicado na iniciativa privada (a partir do monitoramento das tabelas públicas de remuneração disponíveis no CREA, p. ex.); os mercados da iniciativa privada na área de engenharia são bem estruturados e envolvem muito dinheiro >> isso favorece a negociação com o setor público.

* Dificuldades: 1. Conteúdo em gestão e estruturação de carreira (que as outras carreiras também enfrentam). Ex. EPPGG: 1. Busca pela organização sólida da carreira. 2. Política agressiva por qualificação (não entender qualificação como titulação, principalmente na área dos AIs)

* Na negociação de remuneração do setor público há sempre a dificuldade em se estabelecer o limite entre o quanto é pouco e o quanto é muito. Para a área econômia será sempre muito. Mas a comparação com a iniciativa privada permite um balisamento desse valor para partir para uma discussão mais coerente. É preciso ter sensibilidade para entender a realidade do país e levar essa discussão em torno de reivindicações plausíveis (não só salarial, mas de estruturação da carreira). É preciso discutir essas questões tecnicamente.

* Quando as coisas melhoram para uma carreira, há uma combinação de fatores: 1. Sensibilidade dos dirigentes políticos. 2. Pessoas da carreira ocupando posições chave, em condições de influenciar o processo decisório político. 3. Credibilidade do trabalho desenvolvido e da área de atuação. 4. Realidade fiscal. 5. Construção de alianças que alavanquem a valorização da carreira.

* Os AIs, para o prazo de existência da carreira, andaram relativamente rápido nesse processo de valorização, mas também acumularam problemas que não são de fácil solução (mobilidade e transversalidade dos servidores, por exemplo). No entanto, houve uma rápida construção de credibilidade que favorece os avanços e lutas.

* É necessário construir os argumentos e construir alianças de suporte para melhorar a situação da categoria.

* Segurem, administrem e isolem os malucos que fazem parte da categoria! Eles fazem muito estrago e destroem lutas e relacionamentos construídos.

* No fim das contas, vocês contam fundamentalmente com vocês mesmos e com aqueles comprometidos com a construção do serviço público profissional para além das divergências políticas e ideológicas. E é preciso estar atento para essas divergências não influenciarem ou prejudicarem o desenvolvimento da carreira.

* Vocês precisam se articular horizontalmente. A carreira de gestor obteve muitos avanços porque as lutas não foram articuladas sozinhas. É um jogo infinito e que deve ser contínuo: é importante estabelecer uma continuidade das ações nos momentos de troca de gestão da associação, sempre pensando no coletivo e interesse público.

* É preciso atuar de forma estratégica com o foco do coletivo sempre em mente >> “Eu sou a solução para o serviço público, ou para o problema tal” não é uma fala que cativa o governo. O governo precisa de fato se convencer da importância da carreira para que as coisas melhorem.

* O canibalismo pela disputa de servidores que resulta, muitas vezes, no desvio de função é clássico no serviço público e vai acontecer enquanto não resolver a escassez de pessoas para executar atividades meio/cotidianas dentro de todos os setores >> não é problema fácil de resolver em sua essência.

* Na minha experiência de negociação com o governo federal, o discurso de que haverá grande evasão caso não aumente o salário ou atenda a outras demandas, não funciona. A resposta normalmente é assim: “oh dó!” “Who cares?” “Bye!” Não... Isso não sensibiliza, então tenham muito cuidado com esse discurso no campo externo às discussões entre vocês mesmos. Esse discurso é real e sincero, mas não ajuda em nada no “pega-pra-capar” da negociação. A racionalidade do governo nas negociações trabalhista, em geral, é a pior possível.

* Vocês têm que mostrar uma condição de importância a quem quer, no governo, que ela seja importante. Muita gente preferia que vocês não estivessem ali “enchendo” a cabeça deles, então, cuidado! Não existe “o” governo. São muitos envolvidos na gestão da carreira de vocês e vocês precisam da ajuda deles, mas não é uma ajuda fácil, por isso é preciso construir os argumentos.

* Quando eu era alegre e jovem via todos esses problemas como falta de vontade política e falta de dinheiro. Hoje temos mais dinheiro e alguma vontade política, mas faltam muitas outras coisas: falta convencer pessoas, falta mostrar serviço, faltam exemplos, falta o país entender certas coisas, falta organizar as escolhas. É claro... vontade política conta, vontade política dos cargos chaves conta, as chefias contam, a entidade conta, o trabalho individual de cada um de vocês conta. Então, existe um conjunto de fatores que interferem nas conquistas de vocês, mas mesmo tendo muito a favor e fazendo tudo certo, as coisas dão errado às vezes. Vocês têm que trabalhar esses fatores simultaneamente, estando cientes que existem interferências do acaso.

* Nós todos temos pouca tradição em ações coletivas de forma estruturada, organizada e com credibilidade. Não é simples. E vocês precisam de regras, precisam de critérios... não só de dinheiro.

* A inteligência do governo é uma construção coletiva de longo prazo. Me incomoda profundamente ver decisões de Estado a respeito do gasto de recursos públicos sem o envolvimento de profissionais minimamente qualificados. E isso depende do que vocês têm condições de agregar. Não adianta só esperar. Se vocês não põem em prática a solução, não vai rolar.

* Os gestores só se fortaleceram e cresceram porque algumas pessoas na administração pública federal viram a necessidade de profissionais de carreira para conduzir as políticas de estado brasileiras. Mas eles tiveram que convencer o governo disso.

* O volume de recursos nas políticas públicas é gigantesco e por isso precisa de profissionais realmente qualificados e competentes para tomarem decisões acertivas em relação ao seu destino.

* A maioria de vocês não teve oportunidade de fazer treinamentos e cursos em gestão, formação em gerência, formação executiva - estou falando em cursos de curta e média duração e não de especialização. Acho que valeria à pena e agregaria ao desempenho de vocês, irem atrás de escolas que possam oferecer esses cursos aqui em Brasília. Existem boas instituições no Rio em São Paulo interessadas em ministrar cursos aqui e vocês poderiam conseguir um preço bom para um grupo de 30/40 pessoas. Só espero que vocês não pensem logo em comprar o melhor curso do mundo. Comprem uma coisa standard, básica, e subam dois ou três degraus de cada vez. A melhor coisa em que vocês podem investir é em vocês mesmos. Isso fortalece a categoria e vai mudando o patamar e reconhecimento de vocês.

* Quando falo que vocês devem fazer cursos, não estou me referindo à ENAP, muito menos Esaf. Pode até ser interessante, mas eu não olharia pra elas. Estou falando das GVs, alguma coisa da Dom Cabral, Coppead, a própria UNB... enfim, um mercado diferente. O mercado da ENAP é APO e Gestor. Eu estou falando de algo que agrege de fato ao desenvolvimento do trabalho específico de vocês. Vocês têm que buscar se posicionar no “mercado” do serviço público e se qualificarem.

* A atuação dos AIs precisa de engenheiros, mas não de doutores engenheiros (talvez apenas uma cota deles, mas isso não é o fundamental). É preciso qualificação na área de atuação que seja reconhecida e válida para o exercício do trabalho desenvolvido e que agregue valor à categoria de vocês.

* E vocês acham que a insatisfação que está ocorrendo agora é com os serviços de infraestrutura? Não, não. É com educação, saúde, mobilidade, pobreza... Na área social a insatisfação é maior, mas bem mais confusa e complicada.

* Quando o PAC nasceu, estava claro para nós não tínhamos a menor condição de conduzir esses programas sem o auxílio de profissionais da área. Por isso vocês estão aqui. A questão da defasagem de infraestrutura é atual e vai permanecer assim por um bom tempo. Já está escancarada a necessidade de profissionais qualificados para atuar nessa área. Existem muitos problemas, mas eu acho que vocês são parte da solução disso tudo.

* O desafio de vocês é construir uma interlocução de nível mais alto. E a verdade é que vocês precisam fazer lobby pro resto da vida e convencer o governo que vocês são a solução para os problemas dele.

Rubens Bias

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